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12 anos sem dados socioeconômicos

O que pode acontecer em 12 anos? Quais as transformações possíveis? Você consegue imaginar-se mudando de casa, formando um filho na faculdade, tendo novos filhos, netos, perdendo parentes, mudando seu patamar salarial na sua carreira, se casando, se separando? Tudo pode acontecer nesse tempo. E todas essas informações são fundamentais para se planejar o futuro dos investimentos públicos e privados.

O Censo, que desde 1940 acontece a cada 10 anos no Brasil, gerando dados importantíssimos sobre perfil de raça, classe, gênero, sobre situação de moradia, de ocupação, de acesso a benefícios, será adiado por 2 anos e sofrerá cortes de até 40% no orçamento. Desde 2019 já vem sendo ameaçado, pelo cunho político-ideológico que um “apagão de dados” representa neste momento, com cortes no questionário.

Porém, o trabalho estatístico que é realizado a partir do Censo é incomensurável. Basicamente todos os dados de avaliação, diagnósticos, análise de tendências, riscos, foco de investimentos, tanto em políticas públicas quanto da iniciativa privada, dependem desses dados para atuar.

E o que está acontecendo é que decisões importantes sobre orçamento estão sendo tomadas com base em dados de 10 anos atrás. Será que aquele mesmo bairro, perfil social, território, que estava numa situação vulnerável 10 anos atrás ainda é o mais vulnerável? Ainda é quem mais precisa daquele investimento? Será que em 10 anos aquelas mulheres, mães solo, periféricas, continuam nas mesmas residências? Será que a situação da moradia já mudou, já foi urbanizado aquele bairro, não precisa mais? Pois é, corremos um grave risco de tomar decisões sem base na realidade presente.

Para nós, profissionais de pesquisa, trata-se de não ter a principal matéria prima do trabalho. Imagina fazer um bolo sem a farinha? É impossível gerar informações confiáveis, sem dados confiáveis. Já vivemos uma enorme dificuldade com a insuficiência da geração de dados no Brasil, especialmente quando falamos em recortes de gênero. Com o Censo sendo adiado para 2022 (ano eleitoral, tudo podendo acontecer para ele ser adiado mais um pouco), precisamos mobilizar o campo profissional para a necessidade de cumprimento de certos compromissos e a retomada do orçamento para o Censo.

Cada casa brasileira é visitada. Cada bairro avaliado. O Censo produz, até, dados pouco utilizados: você sabia que os recenseadores fazem uma avaliação qualitativa do estado da rua, das casas, da região visitada? Esses dados estão disponíveis por setor censitário e são muito pouco usados para tomada de decisão, mas existem.

Sei que estamos vivendo momento difícil em que todas as pautas de redução de conquistas e direitos estão em ameaça e, portanto, são relevantes para nossa observação e advocacy. Que o Censo seja uma delas!

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